O encontro de duas gerações

Tatiane Hirata

O velho não lhe tirava os olhos. Sentado no banco ao lado, dirigia-lhe um sorriso familiar enquanto a fitava. Era o primeiro ano na faculdade e ela, que nunca pegara um ônibus na vida, atravessava agora a cidade que nem conhecia num circular em cujo itinerário era obrigada a confiar, sobretudo porque não saberia voltar se saltasse dele. “Será que eu tô cagada? Ou será que tá escrito na minha cara que eu to perdida? Talvez seja só porque ele é velho, afinal. As pessoas do tempo dele devem achar normal ficar encarando os outros até fazê-los se sentirem desconfortáveis”.

Mas aquilo já estava ficando estranho. Não queria ser sequestrada por um velho em seu primeiro mês de semi-independência, logo agora que morava sozinha, mas já que a ideia era se tornar auto-suficiente, talvez fosse melhor encarar. Devolveu-lhe o olhar, esperando uma explicação, que veio na forma de uma pergunta que era quase uma afirmação: “você é minha neta?”. “Ótimo, deve ser Alzheimer – pensou – mas minha avó também tinha isso e até que ele é simpático. Será uma pena desapontá-lo”.

“Não, senhor. Não sou sua neta”. Mas ele não ficou desapontado. Em vez disso, tentou convencê-la do contrário. “Tem certeza?”. Ela tinha, mas mesmo assim resgatou na memória a imagem dos dois únicos avôs de que tinha conhecimento. Ele não se parecia com o finado jitian de que sentia tanta saudade, tampouco com o pai de seu pai, que morrera antes mesmo que ela nascesse. “Tenho, senhor. Eu nem sou daqui. Sou nova na cidade”.  Agora ele parecia ter entendido.

Que nada. Ele tentaria mais uma vez depois de outra pausa de silêncio. Coisa de gente da idade dele, isso de fazer tudo devagar. Parece que demora até pra pensar no que vai falar: “o meu filho se casou com uma japonesa e foi pro Japão. A minha neta nasceu lá e eles voltaram pra cá agora. E eu acho que ela é você, é tão parecida. Tem certeza que não é você?”. Tentou sorrir ao responder, afinal, tinha de ser paciente, eles demoram mais para processar informações: “Ah, então, eu nasci no Brasil e nunca saí daqui. Infelizmente, tenho absoluta certeza de que não sou sua neta, senhor”. E ele só devolvia aquele sorriso cheio de certeza e aquele ar de sabedoria milenar.

Alguns pontos depois, o velho desceu. Olhando da janela, ela o viu na calçada, acenando-lhe. O ônibus arrancou e ele continuou acenando até que sumisse na curva. Ela respondeu o aceno e os sorrisos, despedindo-se do avô que acabara de conhecer e que nunca mais tornaria a ver. Talvez ele tivesse mesmo razão.

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