Platão, te dedico.

Por Letícia Nascimento

Ainda me lembro de quando acordava, pontualmente, às dez horas da manhã, aqueles minutos mais cobiçados nas férias de verão, para ligar o rádio e sintonizar na Kemper FM. Por algum motivo específico e desconhecido – gosto de pensar que o programador estava na mesma vibe que eu – todo dia naquele horário, a vida lá fora, eu deitava em cima do tapete para ouvir “Playground of love”. Air, para os desavisados. Sim, eu estava apaixonada.

Em meus delírios, melodia e sentimento se fundiam em uma música mágica, colorida até a boca, que se abria à espera de um beijo bom. Mas só se fosse dele. Com aqueles cabelos macios, loiros, aquele olhar de quem espera o que não existe, aquele sorriso que ele dava enquanto atravessava a rua. Eu o tinha conhecido há duas semanas, em um bazar de livros e roupas antigos, brechó cultural, por assim dizer. Ele comprou um cd que eu queria. Eu tinha esquecido a carteira.

Após intensa troca de olhares, sentamos em um parque com vinho e bolinhas de chocolate com licor de cereja, enquanto nos servíamos das referências que roçavam nossas costas e nos faziam viver. Risos. Obviamente, esse encontro clichê não saiu da minha eficaz, e afetada, imaginação. Nunca nos falamos. Não que eu não quisesse, porque todos os dias dormia para sonhar com ele e acordar, por obra de um destino feliz, ao seu lado, com cheiro de cigarro e a cerveja quente do dia anterior. Apenas sonho.

Sim, cai naquela coisa chata de amor platônico, que filósofo nenhum dá conta de curar ou transformar em realidade. Entrei de cabeça em uma paixão desenfreada, porém – paradoxos ambulantes me mordam – cheia de freios que me impediam de dizer: “olá, tudo bem, muito prazer”. O prazer é meu, de imaginar. Aquele menino lindo, com seu tênis sujo, a camiseta da banda que eu nunca ouvi falar, aquela cicatriz de quem caiu de skate repetidas vezes…

Foi desse estilo maltrapilho-cheiroso que tirei todas as minhas exigências futuras, em um raio de três anos de aventuras românticas. Era cabelo desgrenhado, o jeito de andar, olhos pequenos, quase drogados, na cara de moleque. Ele consolidou o biotipo dos sonhos. Coisa que só um amor desses impossíveis pode proporcionar. Era como se todos aqueles parecidos com ele fossem predestinados a mim. Loucura? Não. A paixão mais pura inspirando outras.

O que é real, nessa coisa que está tão distante, é a forma como você passa a conhecer cada centímetro do corpo da outra pessoa, sem sequer saber seu nome. Você planeja um milhão de encontros à luz do sol, sessões de cinema,  eventos em família; as fotos com o novo amor se espalham nas paredes vazias do quarto. É tudo muito bonito. Universo das virtudes, sabe? E, assim, por desconhecê-lo tão bem, a cada encontro repentino rua afora – descobri alguns anos depois que ele morava há duas quadras de mim – eu sentia todos os órgãos trocando de lugar, lembrava a fórmula da Lei de Newton e não conseguia fixar meu olhar em seus olhos por mais de meio segundo. Eu sabia todo o seu futuro. Eu o queria tão bem. Eu nunca falei com ele. Nunca.

Hoje dei muita risada, ao lembrar e contar para minhas amigas sobre essa paixão que durou nove meses, uma gestação que terminou com um parto, quando o vi subindo a rua do cinema de mãos dadas com uma garota conhecida e rindo e contando piada e dizendo que tinha passado no vestibular. Eu tinha 15 anos e não sabia direito o que era amar. Longos e intensos anos se passaram, outros amores vieram, uns correspondidos, muitos não, mas quando ouço, na Kemper FM, às dez horas de uma manhã cheia de responsabilidades: “I’m a high school lover and you’re my favourite flavor”… é como se fosse real outra vez.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s