Queime seus livros sobre princesas e leia os desta lista no lugar

Felipe de Souza

Lista de hoje: livros decentes.

Uma rápida olhada nas listas dos mais vendidos de qualquer grande veículo de comunicação – da Veja ao The New York Times a coisa não muda muito – dá margem à seguinte conclusão: nós da Geração Y, no geral, gostamos de ler merda.

Antes, as referências eram William Shakespeare, depois João Guimarães Rosa (as obras de ambos, como bom representante da geração Y, não conheço). Nós, do início do Terceiro Milênio, deixaremos como ícones culturais uma história sobre uma vampira menstruando pela primeira vez e outra sobre um cara que aprende a valorizar as coisas depois da morte de seu cachorro semi-retardado. Os historiadores e críticos do século XXII rirão de nós e essa reação será mais do que adequada.

Por isso, aí vai uma lista de cinco livros que o público de hoje pode ler e gostar. A ideia seria colocar apenas obras publicadas mais ou menos do final da década de 1980 para cá – que é quando me falaram que começa a geração Y – mas por questões de memória, listarei os que foram lidos recentemente. São histórias simples, de leitura fácil. As história não mostram garotos que, entre um episódio de polução noturna e outro, salvam o mundo de feiticeiros malignos. Isso pode te desanimar, mas são livros legais, pode confiar.

O apanhador no campo de centeio

Escrito por J. D. Salinger no final da década de 1940 e publicado em 1951, o livro na verdade é um excelente retrato da geração dos nossos avós, os baby-boomers, que chegavam à adolescência nos tempos retratados na obra. Mas a história simples de um adolescente – Holden Caulfield – que, ao ser expulso do internato onde estuda, resolve passar uns dias de bobeira em Nova York, mostra que, embora o tempo passe e a cultura mude, temos mais em comum com as gerações anteriores do que pensamos: os jovens de 60 anos atrás também tinham a ânsia de encontrar um lugar em um mundo que os desagradava, e o medo de se tornarem “phonies” (algo como falsos, ou superficiais) como todos que os cercavam. A única cena “datada” da obra, pelo que me lembro, é quando Holden tenta apagar a palavra “fuck” pichada na parede, para que sua irmã caçula não leia. Eles ainda tinham um tipo de inocência parece não se encontrar mais.

Ensaio sobre a cegueira

José Saramago era conhecido pelo que chamavam de “realismo mágico, só que mais pé no chão”, e sua obra mais famosa, de 1995, não foge à regra. No começo, a escrita dá vontade de atear fogo no livro e jogá-lo pela janela, mas com 10 minutos de paciência, dá para se acostumar tranquilamente. Além disso, os parágrafos grandes e a quase completa ausência de pontuação – tornando a história praticamente um longo fluxo de consciência – contribuem para o clima surreal da coisa toda.

A trama é bastante conhecida, especialmente depois do filme do Meirelles: os habitantes de uma cidade sem nome (poderia ser a nossa) ficam cegos, sem nenhuma razão aparente. À medida que a sociedade regressa aos horrores mais primitivos, os seis personagens centrais (nenhum é nomeado – poderiam ser gente como nós) conseguem se manter vivos através da cooperação, justamente um dos valores mais menosprezados do mundo atual – e pela “geração Y”, ainda influenciada pela ganância dos nossos predecessores (Ferris Bueller não foi o único representante da geração X: os yuppies tiveram um peso muito maior, e de certa forma ainda nos espelhamos em sua competitividade).

Saramago não explica as causas da epidemia de “cegueira branca”, mas isso é o que menos importa. Seu livro, embora não diga com todas as palavras, é explícito ao colocar a cooperação como uma alternativa mais humana à competição, à ganância e a tudo que nos afasta do que poderíamos ser.

Persépolis

Este é menos conhecido que os dois acima, por se tratar de uma história em quadrinhos seriada, lançada em edição única pela Companhia das Letras recentemente. Não lembro o ano em que foi escrita – creio que no início dos anos 2000 – mas a história tem letras e desenhos da Marjane Satrapi, artista iraniana, nascida em Teerã e radicada na França. À primeira vista, não tem nada a ver conosco: Satrapi pertence a outra cultura, a persa, e nasceu em 1969 – ou seja, nada de geração Y nesse livro.

O aparente distanciamento se alarga com o contexto histórico. Satrapi passou a juventude no Oriente, meio a eventos como a derrubada do violento regime pró-americano de Rheza Pahlavi pela Revolução Islâmica, a grotesca teocracia de Kohmeini, o seqüestro da embaixada dos Estados Unidos em Teerã e a Guerra Irã-Iraque. E teve que sair do país, porque seus pais, ativistas de esquerda, não viam nada no país natal que pudesse ser benéfico à filha.

Mas nada disso importa. Mesmo com tudo isso, o livro se trata fundamentalmente do amadurecimento de uma menina. As mulheres que vão encontrar muita coisa lá para se identificarem, e os homens vão pensar: “conheço pelo menos dez garotas que fariam como a Marjane fez nesta ou naquela cena”.

A insustentável leveza do ser

Leitura decepcionante, por causa de toda a falação em torno do livro do Milan Kundera. Além disso, filosofia não é meu forte, e me perdi nas partes mais profundas. Talvez se reler uns anos mais pra frente, fique melhor. De qualquer modo está muito acima da média.

Publicado em 1984 – creio que na época, Kundera ainda era proibido em seu país natal – a obra narra a vida de dois casais, Tomás/Tereza e Franz/Sabina, (e Tomás é amante de Sabina). A história se passa na cidade de Praga, em 1968, meio ao caos gerado pela invasão da Tchecoslováquia pela União Soviética (Dubcek queria um socialismo humano e democrático, Brejnev não gostou da ideia) e à censura e repressão instauradas depois da ocupação, causando transtornos na vida dos personagens.

Mas o eixo central é o relacionamento dos quatro personagens. Tomás, médico de sucesso, parece antecipar o comportamento que se tornou comum no começo deste século: mesmo amando a esposa, várias vezes sucumbe à própria inconstância, mantendo uma coleção de amantes. O livro também destaca algo quase universal do pensamento masculino: dormir junto exige mais carinho e intimidade do que fazer sexo.

O retrato de Dorian Gray

Único romance de Oscar Wilde, publicado por volta de 1890, de longe é o menos empolgante dos livros desta lista, mas nem por isso menos valioso.

O enredo é conhecido: Basil, o artista, pinta o retrato de um jovem que admira muito, o Dorian Gray do título. O terceiro personagem, Lord Henry, é um dândi (algo como o ancestral inglês vitoriano dos playboys inúteis de hoje) que passa a exercer uma influência destrutiva sobre Gray, levando-o a caminhos de hedonismo, onde o prazer imediato é procurado sem se levar em conta as conseqüências para si mesmo e os outros. O elemento fantástico do livro é a conservação física:  nem os anos nem o estilo de vida excessivo de Gray fazem com que ele envelheça; sua pintura, por outro lado, se deforma até chegar a níveis de irreconhecível monstruosidade.

Mais de cem anos após a publicação original, não se sabe se Wilde escreveu o livro como uma crítica ou uma ode a um estilo de vida superficial e inconsequente.

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